Requalificação Urbana Porto das Marés
O projeto de Requalificação Urbana Porto das Marés, desenvolvido para a MRV Engenharia, em Fortaleza, nasce como uma costura urbana delicada, daquelas que não apenas unem pedaços da cidade, mas reorganizam seus fluxos, suas pausas e seus encontros. Com uma área total de intervenção de aproximadamente 14.300,00 m², o projeto articula três praças — duas implantadas e uma requalificada — formando um sistema contínuo de espaços públicos integrados.
Desde o princípio, a proposta foi guiada pela busca de integração, tanto visual quanto física. Essa integração se materializa por meio de uma cuidadosa articulação entre acessos, distribuição de equipamentos, desenho paisagístico, mobiliário urbano e paginação de piso. Como diretriz complementar, adotou-se a valorização de grandes áreas não pavimentadas, permitindo maior permeabilidade do solo, conforto térmico e presença marcante da vegetação, em contraponto à rigidez mineral da cidade.
O conjunto é estruturado a partir de três espaços principais. A praça linear, localizada ao longo da Av. 20 de Janeiro, com cerca de 3.466,78 m², funciona como elemento de transição e acolhimento, incorporando estacionamento para visitantes — com sete vagas, incluindo duas destinadas a pessoas com deficiência — além de áreas de estar com bancos de alvenaria. A praça central, com aproximadamente 5.542,26 m², constitui o coração do projeto, concentrando a maior diversidade de usos e fluxos. Já a terceira praça, com cerca de 2.951,90 m², corresponde à requalificação de um espaço existente na Rua Wicar Bastos Cavalcante, recebendo melhorias estruturais e integração ao novo sistema urbano proposto.
A paginação de piso desempenha papel fundamental na construção da identidade do projeto. Desenvolvida a partir do formato irregular do terreno e da preservação das árvores existentes, ela organiza os fluxos e cria uma leitura dinâmica do espaço. Foram utilizados blocos intertravados nas cores grafite, cinza claro, amarelo e vermelho. O amarelo dialoga diretamente com a presença marcante dos ipês amarelos e com os elementos de mobiliário, criando unidade visual; o vermelho define a pista de cooper que contorna a praça central; enquanto grafite e cinza claro estabelecem uma base neutra que potencializa o desenho e a integração dos espaços.
Na praça central, os equipamentos públicos foram distribuídos de forma estratégica, garantindo uso equilibrado e contínuo: academia ao ar livre, playground, pet place, bicicletário, quadra de areia e circuito de caminhada. Esses elementos são organizados por meio de áreas não pavimentadas e eixos de circulação que estruturam o espaço sem fragmentá-lo. Três grandes passeios atravessam a praça, sendo um deles um eixo principal em forma de bulevar, conectando importantes pontos do sistema viário e estruturando a experiência do usuário. Ao longo desse eixo, o plantio de ipês amarelos cria, em determinados períodos do ano, uma cobertura vegetal vibrante, quase cenográfica, que transforma o cotidiano em evento.
O mobiliário urbano reforça essa identidade. Bancos de alvenaria em tonalidade amarela são distribuídos de forma contínua, acompanhando os canteiros e funcionando simultaneamente como assento, elemento compositivo e delimitador físico dos espaços vegetados. Em pontos estratégicos, esses bancos assumem dimensões ampliadas, funcionando como arquibancadas e integrando árvores em sua estrutura, ampliando o conforto ambiental e o potencial de uso coletivo.
A praça requalificada incorpora intervenções que ampliam sua funcionalidade e acessibilidade, como reforma da quadra existente, implantação de arquibancada, escadaria de conexão com a praça central e rampas adaptadas ao desnível do terreno. Essa área passa a dialogar formal e funcionalmente com as demais, consolidando a unidade do conjunto.
O paisagismo foi concebido como elemento estruturador e não apenas complementar. Baseado no Plano de Arborização Urbana de Fortaleza, o projeto prioriza espécies nativas, visando maior adaptação climática, menor necessidade de manutenção e promoção da biodiversidade. Foram utilizadas espécies como ipê amarelo, ipê branco e carnaúba, além de saboneteira e pau-ferro-do-litoral, compondo um conjunto de 172 árvores. Nos estratos inferiores, espécies arbustivas e forrações como moréia, gota-de-orvalho, capim-do-Texas, dianela, chuva-de-prata e buganvília garantem diversidade cromática e textural, complementadas por elementos minerais como seixo Piauí e areia.
O desenho paisagístico adota uma geometria em zigue-zague, dialogando tanto com a forma das praças quanto com a paginação do piso. A vegetação é organizada em volumes escalonados, ora acompanhando os bancos, ora estruturando o centro dos canteiros, criando uma composição dinâmica e tridimensional.
A acessibilidade e a iluminação foram tratadas como aspectos essenciais. Todo o conjunto conta com piso podotátil, rampas adaptadas e soluções que garantem o uso universal dos espaços. A iluminação pública combina eficiência funcional com valorização cênica, incentivando o uso noturno com segurança e qualidade ambiental, ao mesmo tempo em que destaca elementos da paisagem e do mobiliário urbano.
Assim, o projeto de Requalificação Urbana Porto das Marés se consolida como uma intervenção que transcende a simples qualificação física do espaço, propondo uma nova forma de vivenciar a cidade. Ao integrar paisagem, infraestrutura e uso social, o projeto constrói um território contínuo, acessível e vivo, onde a urbanidade se manifesta não apenas na forma, mas na experiência cotidiana de seus usuários.
Ficha Técnica
Localização: Fortaleza/CE
Ano de conclusão do projeto: 2022
Área total construída: 14.300,00 m²
Arquitetos responsáveis: Alesson Matos, Emmanuel Santos, Beatriz Siqueira e Armênia Araújo
Equipe: Gabriela Filgueiras





