Naia


A compreensão social acerca do que se trata a saúde mental já passou por muitas modificações ao longo de todos esses anos. De acordo com Foucault (1991), a percepção da loucura e o espaço que ela ocupa já oscilou desde um “poder divino” concebido até a necessidade de um isolamento social absoluto do portador da loucura, que era considerado uma forte ameaça ao bem estar da sociedade.
Entretanto, com o avanço das ideias francesas de igualdade, como cita Amarante (1995), os distúrbios mentais passaram a ser tratados como uma doença/comorbidade que necessitava de determinados tratamentos, tendo em vista que não era algo assustador ou uma ameaça iminente à população. A partir desse momento, estabelecimentos especializados no atendimento dessas pessoas surgiram e se modificaram, de acordo com a evolução da tecnologia, informação e medicina.
Atualmente, os hospitais mentais encontram-se em diferentes formatos, variando, desde internação intensiva a hospitais-dia, oferecendo uma flexibilização do atendimento, além de uma atmosfera diferente ao paciente, dependendo da sua real necessidade de acompanhamento.
O Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto atende, desde a sua fundação, portadores de distúrbios mentais leves e acentuados. Está localizado no bairro Messejana, próximo a CE040, que liga a capital a regiões metropolitanas e ao litoral cearense.
A unidade é dividida em núcleos, cujos pacientes são filtrados e separados de acordo com a idade. O NAIA (Núcleo de Atenção à Infância e Adolescência) trata do público infantojuvenil. Tendo em vista o seu público alvo e a complexidade dos procedimentos realizados no local, nota-se a necessidade de um ambiente que seja capaz de acolher e acalmar os pacientes, além de oferecer uma estrutura mínima aos profissionais do EAS.
O Núcleo de Atenção à Infância e Adolescência do Hospital Professor Frota Pinto atende uma vasta gama de pacientes de todo o estado do Ceará, que apresentam diferentes idades e exigem diferentes tipos de atenção e tratamentos. Suas dependências, no entanto, não estão adaptadas para esse público, fazendo com que o dia a dia nessas instalações assuma um caráter estéril, frio e genérico. Portanto, é notável a necessidade de um ambiente que acolha, envolva e diminua a pressão que, automaticamente, gira em torno da temática; que seja capaz de tornar os tratamentos mais leves e eficazes, além de proporcionar um ambiente mais agradável e funcional aos funcionários do local.
Portanto, este artigo busca, através de pesquisas realizadas e desenvolvimento de projeto de humanização hospitalar, justificar a importância de um ambiente adequado aos usos, ressaltando as influências positivas e negativas desse tipo de espaço.
O processo de criação de um novo projeto para a unidade iniciou-se pela pontuação de diretrizes capazes de nortear as necessidades e pedidos do corpo técnico e pacientes, além de relacionar com conceitos e estratégias arquitetônicas, tais como: I. Aproveitamento da estrutura existente; II. Intervenção de baixo custo; III. Ampliação dos espaços multifuncionais; IV. Soluções viáveis de humanização; Utilização de materiais de fácil limpeza e manutenção; Ambientes com iluminação natural; Ergonomia; V. Elementos naturais para dentro da edificação; VI. Elementos lúdicos.
Busca-se, com a nova proposta, criar um ambiente humanizado através de uma estrutura adequada, adaptada para o público alvo da unidade. Isso será possível com a utilização de cores, elementos lúdicos e uma ambientação capaz de oferecer certo acolhimento aos usuários, aliviando um pouco da tensão naturalmente presente em ambientes hospitalares. Esses pontos serão alcançados por meio de intervenções de baixo custo, usufruindo de elementos já existentes na unidade, como a estrutura da edificação e a incorporação de elementos naturais do terreno, como vegetação, ventilação e iluminação naturais, possibilitando conexões físicas e visuais com o interior da unidade. Os novos materiais escolhidos facilitarão os processos de limpeza e manutenção do NAIA.
O layout existente e a setorização da unidade foram elaborados de forma prejudicial aos fluxos diários e rotinas de atendimento. Apenas uma entrada pode ser identificada, misturando os acessos dos usuários com o de serviço. Conta com salas administrativas descentralizadas, localizadas próximo da entrada e no final do corredor que abriga as salas de atendimento/consultórios.
As salas de atendimento se concentram ao longo do corredor secundário, apresentando uma quantidade de mobiliário e distribuição espacial insuficientes para os atendimentos. Tal déficit gera uma adaptação forçada por parte dos funcionários para a criação de novas salas e consultórios. Para isso, muitos improvisam atendimentos na copa e em algumas salas administrativas.
Observa-se, então, que a estrutura oferecida não atende a demanda dos pacientes e profissionais que fazem o uso do NAIA. É preciso redistribuir os fluxos, criar acessos e oferecer o mínimo de amparo espacial no complexo, facilitando os atendimentos e tornando os serviços ali oferecidos mais eficazes.
As modificações que envolvem demolição e construção de novas estruturas visam tornar os fluxos e os ambientes internos da unidade mais adequados ao cotidiano dos funcionários e usuários da unidade.
Umas das principais alterações será a criação de um novo acesso principal e de serviço ao NAIA. Essa intervenção possibilitará um melhor direcionamento do corpo técnico e de pacientes, oferecendo a privacidade adequada aos mais diversos tipos de procedimentos ofertados ao público, assim como para a parte administrativa. O acesso existente será desativado.
Novas salas administrativas serão projetadas na área que, antes, abrigava a recepção, juntamente com um novo acesso de serviço. Tal proposta de intervenção visa proporcionar a privacidade que o setor exige, assim como a centralização dos ambientes relacionados a eles, facilitando os fluxos.
As salas de atendimento e consultórios serão realocadas, todas, ao longo do corredor central da unidade, facilitando os acessos da equipe médica e dos pacientes. É proposta a criação de novas salas de atendimento no espaço que, atualmente, abriga uma sala/depósito lacrados, que não são utilizados diariamente. A incorporação desse espaço pode contribuir para uma melhor eficácia do serviço prestado.
O projeto existente conta com uma setorização desconexa e que dificulta os fluxos atuais dos funcionários e pacientes da unidade. Alguns dos ambientes que demandam maior privacidade estão locados em áreas de grande fluxo diário, barulho e visualização facilitada.
Tendo isso em vista, a nova distribuição dos ambientes e suas respectivas setorizações permitem um fluxo mais preciso por parte dos funcionários e dos usuários, tornando os deslocamentos para a realização dos mais diversos procedimentos diários mais rápidos e eficientes.
O setor administrativo ganha uma nova localização no layout, com suas salas localizadas em áreas mais restritas e próximas umas das outras, facilitando a comunicação e relação entre elas. O setor de atendimento concentra–se próximo aos acessos principais, facilitando seu uso por parte dos pacientes e profissionais, além de possuir a privacidade necessária de acordo com a atividade realizada.
Os demais setores presentes no NAIA foram locados de acordo com a conectividade necessária entre os ambientes propostos, facilitando fluxos e deslocamentos. Posicionados de forma estratégica, tornam a unidade mais funcional e buscam aumentar a eficácia e melhoramento das jornadas diárias dos funcionários.
A idealização e desenvolvimento deste projeto teve como elemento norteador principal a busca de soluções possíveis para criar uma unidade cada vez melhor, mais eficaz e capaz de tornar as atividades diárias desenvolvidas mais agra dáveis, tanto para os pacientes como para os funcionários.
O projeto expressa a importância das intervenções no âmbito da humanização do ambiente hospitalar, que costuma ser negligenciado quando outras questões mais urgentes surgem, diminuindo o impacto positivo que a atmosfera humanizada pode gerar no desempenho e resultado dos procedimentos realizados.
As modificações propostas foram possíveis graças a ajuda dos usuários da unidade, funcionários e pacientes. São, em sua maioria, soluções práticas de baixo custo e viáveis para a realidade financeira do NAIA. Conta com uma combinação de novos métodos alternativos de serviços prestados e uma ressignificação do ambiente hospitalar, tornando-o restaurador e acolhedor.
As sugestões de modificações para a unidade podem servir como um guia para futuras intervenções, levando em consideração a importância da elaboração de um bom projeto de ação e diretrizes.


Ficha Técnica


Localização: Fortaleza/CE
Ano de conclusão do projeto: 2020
Área total construída: 344,54 m²
Arquitetos responsáveis: Alesson Matos
Equipe: Alana Parente, Emmanuel Santos, Marina Nogueira e Camila Cordeiro